Literatura

Literatura para bebês: entrevista com Naza Salutto

Dando sequência ao assunto Literatura para bebês, entrevistamos a doutoranda em Educação Naza

Salutto.

Naza é carioca, tia de 1 sobrinha, 3 sobrinhos, e com mais um a caminho… É apaixonada por livros desde pequena. Quando começou a trabalhar como professora de Educação Infantil, os livros a acompanhavam o dia todo. Gostou tanto da experiência de reunir livros e crianças pequenas que decidiu estudar os dois. 
Atualmente, faz doutorado em Educação e dá aulas no curso de especialização em Educação Infantil da PUC-Rio. Nas suas aulas não faltam livros de literatura infantil.

NCB- Qual a importância da literatura para os bebês? 
 
Naza – Entre outras coisas, considero que a literatura é importante para os bebês do mesmo modo que é para as outras pessoas. Por agenciar o imaginário, por apresentar a língua e as palavras de modo esteticamente distinto de outras formas de linguagem, por compreender a relação com projetos gráficos, ilustrações e outros elementos que compõe o objeto livro.
NCB- A partir de quando se pode ler para o bebê? 
 
Naza- Desde sempre… Alguns consideram que se deve ler para alguém apenas quando se há compreensão do código escrito. No entanto, a relação com os livros e as palavras compreende o ritmo do texto, a cadência da voz, a oralidade, a brincadeira com as palavras. Assim, ler para os bebês significa compartilhar elementos estéticos do texto através da nossa voz, do jogo oral com a língua… É uma forma de brincar…
NCB-  Qual a relação da do bebê com livro? Como ele se relaciona com esse objeto? 
 
Naza – Os bebês podem se relacionar de muitas formas com o livro. No entanto, é natural que essa relação seja, no começo, o que chamamos de relação de corpo inteiro: o bebê coloca o livro na boca, senta em cima dele, puxa-o de vários lados, abre as páginas viradas ao contrário. Aos poucos, especialmente com a ajuda dos leitores mais experientes, os bebês compreendem outras possibilidades na relação e manuseio dos livros, como virar as páginas na lógica da narrativa, passar os dedos pelas letras e balbuciar no ritmo do texto que escutou, entre outras formas de relação. O mais importante é estar ao lado dos bebês, observar seus movimentos e, lado a lado, devagar, propor novas mediações.
NCB – Como escolher os livros para bebês? O que se deve priorizar na hora da compra?
 
Naza- Hum, a pergunta mais difícil! Mas, vamos lá. Tradicionalmente, os livros destinados aos bebês são aqueles de capa dura, com pouco ou nenhum texto, ilustrações de animais, formas geométricas, meios de transporte e outros elementos que, muitas vezes, nada tem de narrativo ou literário. São apenas livros informativos e a literatura propõe outras dimensões. Sempre gosto de pensar que um livro para o bebê deve ser um livro que gostemos de ler também, com bons textos (jogos de palavras, surpresas, ritmo…) e ilustrações (que também sejam narrativas, ou seja, contenham uma história para além da imagem). Atualmente, o mercado editorial está mais sensível a essas questões e é possível encontrar bons títulos da literatura infantil.
 
NCB – Muitas pessoas acham que as crianças não estão entendendo o livro porque não estão respondendo diretamente àquela história. Como lidar com isso?
 
Naza – Ler, ler, ler e ler! Isso é o que primeiro vem à minha cabeça. Ler para o bebê, ler junto com o bebê. A formação do leitor é um processo que passa desde aquela de corpo inteiro até o momento em que, com autonomia, a criança lê um livro sozinha. É importante conversar com as crianças, perguntar sobre as histórias, fazer provocações, surpresas (o que será isso? E agora, o que será que vai acontecer? Posso mostrar a outra página?). Os diálogos em torno dos livros fazem parte da formação do leitor e apresentam o universo literário para os bebês. 
NCB – Qual sua opinião sobre a divisão de livros por faixa etária? 
 
Naza- Acredito que a divisão por faixa etária é uma ocupação do mercado editorial que não necessariamente atende as expectativas das crianças. Uma criança de 5 anos pode se interessar por um livro destinado a uma de 2 justamente por conseguir ler o texto na íntegra, com autonomia. Assim como um bebê de 8 meses ou 1 ano pode gostar de manusear e escutar uma história destinada a uma criança mais velha. É claro que é importante conhecer e acompanhar a produção editorial (algumas editoras têm excelentes catálogos que não se fecham na faixa etária), mas, volto a dizer: para ser considerado bom, um livro contempla muitas especificidades. E, nessa relação, o leitor tem um papel essencial…
NCB – Você poderia indicar 3 livros para as mães lerem com seus bebês?
 
Naza – Outra pergunta difícil… (risos). Vou indicar três do meu acervo pessoal compartilhado com muitos bebês. Pelas mordidas, acho que podem ser seus favoritos!
 
1 – A coleção O que é o qué?, do Guido Van Genechten (editora Gaudí). Os bebês adoram o suspense que a ilustrações provocam: será que é ratinho…? Depois de totalmente aberto, o livro fica com 60cm e os bebês gostam de explorar suas dimensões. Super recomendo!
 

2 – Cadê Clarisse?, da autora Sonia Rosa (editora DCL), pode ser considerado um clássico. Com graça e humor, a narrativa conta as peripécias da bebê Clarisse. Como o título sugere, a pergunta provoca brincadeiras e diálogos entre as travessuras e brincadeiras de Clarisse e dos bebês que escutam a história. O meu exemplar já está precisando de um substituto de tanto que os bebês gostam!

 

 

 
 

3 – Não se assustem quando abrirem o Quem quer brincar comigo?, do Tino Freitas (editora Abacate). Vocês podem pensar: “Mas, esse é um livro para bebê?”. Sim! Tenho e indico. É desses livros que vão virando uma grande página e as ilustrações propõem o que o título sugere. Sempre o leio com os bebês e, juntos, devagar, vamos abrindo as páginas e tentando adivinhar o que vai acontecer depois… No final… Bom, vocês irão descobrir!

 
 
 
 
 
O Na corda bamba agradece Naza Salutto pela entrevista e pelas preciosas dicas!  

Sobre o autor

Isabella Zappa

Isabella Zappa

Pedagoga, psicopedagoga e mestre em Educação pela PUC-Rio. Atua como professora do Ensino Fundamental I e faz atendimento psicopedagógico de crianças com questões de leitura e escrita, usando a literatura infantil como aliada nesse processo.

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