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Mari e as coisas da vida

 

Há pouco tempo fiz um curso sobre Literatura Infantil e o sofrimento. Sempre digo por aqui que ela é uma excelente aliada nos momentos difíceis pois nos ajuda a perceber, compreender e lidar com nossos sentimentos. Dentre as indicações maravilhosas que recebi no curso, estava a preciosidade de hoje. 

 

Mari e as coisas da vida, fala de perda, morte e sofrimento de jeito possível para uma criança, o texto de Tine Mortier é tangível para um leitor autônono, mas é interessante o uso da mediação, afinal o tema é delicado.

 

Mari e sua avó eram melhores amigas. Brincavam, se divertiam e comiam bolachas juntas. Tinham uma cumplicidade enorme. Certo dia, a avó de Mari fica doente e não está mais ali. Continua viva, mas está parada em uma cama de hospital, com dificuldades para falar, se movimentar e lembrar das coisas.

 

Mari é uma menina cheia de alegria e energia, repleta de amor pela vida. Ela não entende muito bem o que está acontecendo, sente a falta do convívio com a avó, mas se faz presente no hospital, visitando-a e tentando entender o que ela fala, procurando resgatar uma relação que parecia perdida. Mari perdeu sua amiga, apesar de ela ainda estar viva. Mas quem acaba falecendo na história é o avô da menina.

 

O interessante dessa obra é que a perda e morte aparecem em personagens diferentes. Apesar da experiência real, o livro pouco foca no luto pela perda do avô. É a avó a relação mais forte da menina.

 

Mas o relato de morte está lá. Direto e claro, sem rodeios:

 

“Vovô morreu. Mari estava junto quando a mãe o encontrou. Dessa vez ninguém precisou mentir para ela. O avô estava sentado, como sempre, na poltrona. (…) O avô tinha quebrado uma xícara de chá e simplesmente deixado de viver.”

 

E é a menina que dá para a avó a notícia.  

Mari pega avó no hospital e a leva para se despedir do marido. No final do livro, avó e neta, dentro de suas possibilidades, tomam chá com bolachas. Mas não há um final delineado ou feliz. São essas as coisas da vida. E a criança precisa ir construindo suas possibilidades de lidar com isso.

 

Recentemente perdi a minha avó querida. Daquelas matriarcas italianas que reunia todos em volta da mesa. Passar por esse luto tem sido difícil, mas a Literatura é sempre uma parceira para trilhar esses caminhos cheios de pedras. A figura de Mari nos traz a vida, esperança e resiliência de que precisamos para passar por esses momentos..

 

As ilustrações da belga Kaatje Vermeire são pura delicadeza. Os desenhos falam com o leitor e transmitem todas as emoções vividas pela personagem. A personagem principal é viva, leve, cheia de cores, em contraste com a dureza das ações da trama.

Por fim, só o projeto gráfico do livro já é uma obra de arte. É definitivamente um livro para fazer parte de qualquer estante.

 

Boa leitura!

 

Mari e as coisas da vida

Tine Mortier e Kaatje Vermeire

Editora Pulo do Gato

Sobre o autor

Isabella Zappa

Isabella Zappa

Pedagoga, psicopedagoga e mestre em Educação pela PUC-Rio. Atua como professora do Ensino Fundamental I e faz atendimento psicopedagógico de crianças com questões de leitura e escrita, usando a literatura infantil como aliada nesse processo.

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