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A ilha

Era uma vez uma ilha onde se tinha tudo: árvores, casas, praça, uma montanha e no seu centro uma cratera de vulcão.

Certo dia, desembarcam ilha os continentais, parecidos, mas ligeiramente diferentes dos habitantes que já estavam ali. A diferença estava nas roupas, nos penteados e na maneira de falar.

Nem preciso dizer que os habitantes da ilha cismaram que o bom era ser continental. E, para que isso acontecesse, eles tinham que morar no continente.

Pediram ao ministro que construísse uma ponte até o continente.

 

A partir de então, todos os moradores passaram a trabalhar na construção da almejada ligação, que deveria ser longa e forte, já que o continente era longe e o mar agitado. Deixaram suas funções de policiais, médicos, professores e bombeiros e viraram construtores da nova ponte.

E de onde eles iam tirar os materiais para a construção? Dos recursos da ilha. Como quase toda obra, essa também não acabava mais e ia derrubando cada vez mais árvores, pegando pedras da montanha, areia  do solo…

“Na verdade, o engenheiro não se lembrou de que o mar entre a ilha e o continente era muito fundo. Tão fundo que os pilares da nova ponte mais pareciam arranha-céus debaixo d’água.”

 

Troco após tronco, pedra sobre pedra, grãos e mais grãos de areia e os recursos da ilha acabaram.

Ponte inaugurada, todos prontos com suas coisas para se mudar…

Mas… a maré subiu e, como o pontão era feito de areia, os ilhéus não conseguiram chegar até o continente. Para a ilha também não era possível voltar, já que lá não havia mais quase nada, tudo havia servido para a construção da ponte.

 

 

“ E, assim, os ilhéus – que já não eram ilhéus porque não havia ilha e que já não eram continentais porque não havia areia – tiveram que ficar vivendo na própria ponte.”

 

A PONTE 

A ponte é um objeto cheio de sentidos:  liga, sustenta, transporta, é forte, dá trabalho pra construir. Essa mania de não valorizamos o que é nosso e queremos ser o outro está presente sempre no nosso cotidiano, já até falamos disso por aqui com o livro Jemmy Button.

Por isso, esse livro dá pano pra manga para leitores iniciantes, autônomos e experientes. É uma metáfora de vários conhecidos nossos: acho o meu amigo é melhor do que eu, quero ser como ele e desvalorizo tudo que é meu,  a minha amiga tira notas mais altas, meu irmão desenha melhor, minha prima é mais bonita e etc.

A comparação é algo de inerente ao ser humano. Nos reconhecemos em face do outro, por identificação ou oposição. A ilha é um excelente ponto de partida para conversar sobre isso. Perceber que a ilha ficou vazia, que mesmo desvalorizada ela tinha os melhores materiais para construir a ponte. O que será que esses continentais tinham de tão legal? Como é que podemos construir pontes entre as pessoas sem gastar tudo que é nosso? 

Depois de ler esse livro, comecei a pensar que as palavras constroem . Palavra boa é palavra que constrói ponte. Uma relação bem construída é feita de muitas conversas… Foi esse livro que meu deu a ideia para meu novo projeto, um site de poemas e celebrações para unir  cada vez mais as pessoas, o Palavra Ponte. Convido vocês a conhecer! 

A literatura também constrói muitas pontes, você não acha?

A ilha

João Gomes de Abreu

Yara Kono

Editora: SESI – SP

 

Sobre o autor

Isabella Zappa

Isabella Zappa

Pedagoga, psicopedagoga e mestre em Educação pela PUC-Rio. Atua como professora do Ensino Fundamental I e faz atendimento psicopedagógico de crianças com questões de leitura e escrita, usando a literatura infantil como aliada nesse processo.

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