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Eloísa e os bichos

Eloísa e os bichos

A questão dos refugiados

Eloísa e os bichos. Você consegue imaginar o que sente uma criança refugiada quando chega em seu novo país? Alguns livros infantis já abordaram essa questão com maestria. Um deles é A viagem, de Francesca Sanna (para ver a resenha, clique aqui). Mas o livro de hoje constrói empatia de uma forma diferente, faz a gente olhar pra dentro e evoca sentimentos e situações nossas. É de uma sensibilidade tão profunda que me tocou em um lugar que eu há muito não acessava.

Há diversas formas de se contar a mesma história, mas Jairo Buitrago,  Rafael Yockteng e a Editora Pulo do Gato fizeram uma escolha e tanto. Então o destaque dessa obra é a maneira como a narrativa se dá, pelas imagens e poucas palavras que gritam.

A história

O primeiro impacto vem da capa: A menina segura um urso de pelúcia e é cercada de gigantescos insetos por todos os lados. Eu tenho pavor de insetos, então essa cena pra mim já diz muito.

E aí a história começa: a menina e seu pai chegaram em seu novo país, precisaram deixar muitas coisas para trás e se veem cercados de desconhecidos em um ambiente completamente estranho.

“Eu não sou daqui.” diz a primeira frase colada à imagem como uma etiqueta, com um solitário ursinho caído no asfalto. Quanta solidão cabe nestas páginas em dupla.

Em seguida aparecem cenas do cotidiano: os dois atravessam ruas, a menina chega à escola, o pai procura trabalho, eles voltam de metrô para casa. Mas não são seres humanos que estão ali, são grandes e asquerosos insetos, por todos os lados.

Tudo é estranho e desconhecido. A vontade de fugir é constante e a gente sente isso em cada traço.

Acompanhamos o primeiro dia de aula da menina. Na porta da escola vemos a despedida e uma pata verde segurando a mão da criança.

Quantas vezes crianças e adultos não se sentem assim no primeiro dia de uma nova escola, em mudanças de rotina, cidade ou país? Tudo é diferente aos nossos olhos.

Só que esses insetos têm ações humanas: andam de ônibus, fazem mercado, sentam na carteira da escola. Um segundo olhar e eles nem são tão bizarros assim.

Adaptação

Aos poucos pai e filha vão se ambientando na cidade e aqueles insetos vão ficando cada vez próximos, familiares, já não são mais tão estranhos. Já é possível ver um sorriso na menina quando ela se despede do pai para ir à escola ou quando brinca no recreio.

E no final (vou ter que dar spoiler) uma cena comovente: a menina já não é mais menina, é professora da escola, os alunos já não são mais bichos, são crianças, com exceção de um. Ela já está adaptada, já se sente em casa, mas ainda é uma estrangeira que carrega no pescoço seu olhar de exilada.  

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Para crianças e adultos

Entre silêncios e poucas palavras somos atravessados por essa obra como quem está tentando cruzar uma rua movimentada sem sinal. É isso, nesse livro não há pausa, mas há silêncio. E para um tema tão delicado ele se impõe. 

Eloísa e os bichos é um espelho, a gente se vê refletido nele o tempo todo e isso nos mostra que a situação dos refugiados está mais perto de nós do que pensamos.

Um dos melhores livros ilustrados que li nos últimos tempos. De uma densidade emocional incrível e indicado para leitores iniciantes, autônomos e experientes.

Para ler e guardar o silêncio, deixar as palavras e as imagens ecoarem na mente, no corpo e no coração.

Boa leitura e boa reflexão!

Eloísa e os bichos

Jairo Buitrago e Rafael Yockteng

Editora Pulo do Gato

 

Sobre o autor

Isabella Zappa

Isabella Zappa

Olá, eu sou Isabella, autora do Na Corda Bamba! Fiz minha graduação e mestrado em Educação na PUC-Rio e uma pós graduação em Psicopedagogia. Além de escritora e poeta, sou professora de Ensino Fundamental I . Meu grande objetivo é formar leitores e escritores! Por isso, livros, letras e poesia transbordam nas minhas aulas!

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