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A obra de Ana Maria Machado – PARTE I

Ana Maria Machado

Se você foi criança nos anos oitenta, com certeza teve a sua infância marcada por algum livro de Ana Maria Machado. Consagrada como uma das maiores autoras brasileiras, ela ficou conhecida pelo trabalho de excelência direcionado ao público infantil. Mas não se engane, Ana escreveu (e ainda escreve) maravilhas para os adultos. Só que isso é história pra outro post.

Em meio à toda essa triste polêmica envolvendo o livro “O Menino que espiava pra dentro”, escrito em 1983, resolvi começar a resgatar um pouco (e ainda será muito pouco) da extensa obra da autora. É o momento de fazermos um grande movimento e levantarmos sua memória e suas obras.

É muito difícil falar de uma autora que me é tão cara. Além de ter sido leitora voraz de suas obras na infância, Ana era a mãe da Luísa, minha amiga de escola, então tínhamos um convívio próximo. A admiração virou carinho e há cerca de um ano, passamos a trocar emails  falando sobre livros, leitura, formação do leitor e por aí vai…

É impossível compreender minha trajetória leitora e a do Na Corda Bamba sem Ana Maria Machado. Muito do que somos, devemos à uma sementinha plantada e regada por ela.

Mas chega de rasgação de seda e vamos à vida e obra de Ana Maria Machado.

Pequena Biografia de Ana Maria Machado

Ana é carioca e nasceu em 1941 em Santa Teresa. Aprendeu a ler antes dos cinco anos e era leitora e escutadora de histórias. Desde pequena gostava de contemplar seu pai escrevendo. Em um desses momentos, descobriu na estante, uma escultura de Dom Quixote e Sancho Pança. Daí pra frente a curiosidade só aumentou. A história de Ana com Dom Quixote, Sancho e com a literatura ela conta em conta gotas no livro “Por que e como ler clássicos universais desde cedo”.

A escritora formou-se em Letras pela UFRJ (na época Universidade do Brasil), foi jornalista, professora, participou de movimentos de resistência durante a ditadura militar. Tem mais de cem livros publicados e 20 milhões (sim, milhões) de cópias vendidas. Recebeu 3 prêmios Jabuti (maior premiação brasileira de Literatura) e um Hans Christian Andersen (maior premiação mundial da Literatura Infantil). Suas obras são repletas de questões e críticas sociais, o que para época era bem incomum. É bom lembrar que Ana escrevia na época da censura. Foi o caso de Raul da Ferrugem Azul.

Mas tudo que eu disser sobre a sua vida será pouco, portanto, se você quiser saber mais, clique aqui: http://www.anamariamachado.com/home

Foi muito difícil escolher só alguns livros de Ana, então resolvi fazer um post em partes.

A primeira delas está aí: conheça a obra de Ana Maria Machado – Parte I

Uma história meio ao contrário

Esse é um dos meus livros preferidos da infância e tem um começo tão original! Pra nós pode parecer comum a desconstrução dos contos de fadas, mas para década de oitenta era extremamente inovador escrever uma história dessa forma. “E então eles se casaram, tiveram uma filha linda como um raio de sol e viveram felizes para sempre” é a primeira frase do livro, que tem todos os elementos dos tradicionais contos de fadas, mas que de tradicional não tem nada. Para ler a resenha completa clique aqui.

Bem do seu tamanho

Helena não entendia muito bem qual era o seu tamanho. Para umas coisas, diziam que ela já era grande demais, pra outras, que ainda não era grande o suficiente. Afinal, que tamanho era esse que ela tinha? Decidida a encontrar sua resposta, a menina parte em viagem com seu bolão, seu brinquedo boi de mamão. Nessa jornada, Helena vai encontrando gente, bicho, espantalho e cada um deles vai colocando um grãozinho no seu pensamento. Uma delícia de história pros leitores autônomos ou para uma leitura compartilhada com os iniciantes. As ilustrações são de Mariana Massarani e a editora é a Salamandra.

O menino que espiava pra dentro

Lucas era um menino que adorava imaginar. Imaginava debaixo da mesa da sala, atrás das cortinas e tinha até um amigo imaginário. Lucas gosta tanto do seu mundo da imaginação que começa a se perguntar como seria se ficasse por lá. Tamanco, o amigo, acha que pra sempre é tempo demais, mas o menino se inspira nas histórias da Bela Adormecida e da Branca de Neve para bolar seu plano e pular para o mundo da imaginação. Ele dorme profundamente, imagina, imagina…. mas em determinado momento tudo fica escuro. Como ele pode continuar a fantasia sem se alimentar da realidade? Nesse momento (já dando spoiler), Lucas é acordado pela melhor das princesas, sua mãe, que lhe dá de presente um cachorrinho bem real. O nome escolhido? Tatá! Um livro cheio de poesia e sensibilidade indicado para uma leitura compartilhada com os leitores iniciantes e individual dos autônomos.

A velha misteriosa

Nesse livro, indicado para os leitores inciantes, Ana Maria narra a história de uma turma que vivia brincando em frente à casa de uma velhinha. Como não a conheciam, imaginavam coisas horrorosas sobre ela. Até que um dia, um menino corajoso da turma resolve ir até lá e descobrir quem é a misteriosa senhora. E dessa visita nasce uma bela amizade. Um livro cheio de amor pra dar! Para ler a resenha completa, clique aqui.

Histórias Árabes

Ana Maria também é mestre nos recontos. Esse livro faz parte de uma das minhas coleções preferidas. Nela, Ana escolhe, traduz e reconta histórias de diversos povos antigos. Na introdução de cada livro a autora fala dos principais aspectos de cada cultura que aparecem e reaparecem nos contos. Pra quem trabalha em sala de aula, a coleção é uma excelente opção para trabalhar estrutura narrativa, além de proporcionar um belo alargamento cultural. O meu preferido é o das histórias árabes, mas você ainda encontra as histórias chinesas, gregas, africanas e russas. Todos foram ilustrados belíssimamente por Laurent Cardon e editados pela FTD. Para leitores autônomos

Coleção contos de Grimm

Outra coleção de recontos traduzidos e selecionados por Ana Maria. Cinderela, Branca de Neve, Rumpelstiltskin, João e Maria, dentre outras muitas histórias famosas estão por lá. Se você conhece alguns contos de Grimm pela versão Disney, se prepare, a versão original pode ser bem diferente. Mas o bom dos clássicos é beber na fonte e uma boa tradução já é essencial para garantir a qualidade. São quatro volumes (uma capa mais bonita que a outra) e também uma ótima opção para se trabalhar contos de fadas em sala de aula. As ilustrações super coloridas são de Jean Claude Alphen. A editora é a Salamandra. Indicamos  para leitores autônomos

Uma, duas três, princesas

Uma delícia de livro! Um conto de fadas moderno, feminista, que mistura elementos clássicos e contemporâneos com linguagem poética e rimada.

Nessa história, o rei tinha três filhas mulheres e, por isso, propõe ao parlamento mudar a regra de sucessão para que uma delas possa assumir o trono. Para que ficasse tudo igual, o soberano proporcionou a melhor educação às meninas: internet, livros, aulas,  jogos e tudo mais. Mas um dia ele fica doente e, assim como nos contos clássicos, as princesas partem, uma de cada vez,em busca de um elemento mágico curador. E sabem quem salva a pátria? A princesa mais leitora… “Ela não tinha apenas olhos de azeitona. Conhecia o que fica de pé, quando o resto desmorona.

O texto de Ana e as ilustrações de Luani Guarnieri são repletos de referências aos contos de fadas: a Princesa e o Sapo, Chapeuzinho Vermelho, Lobo, Alice, velhinhas, porquinhos… O interessante é que a criança já conheça os contos, assim ela vai poder identificá-los no livro. Indicado para todos os tipos de leitores! A editora é a Ática.

Raul da ferrugem azul

Raul era um menino cheio de qualidades, mas não conseguia reagir quando via uma injustiça. Se lhe roubavam a bola, Raul deixava passar, se o menino menor aprontava, Raul também paralisava. “Será que gente enferruja?”A raiva ia crescendo e com ela as manchas azuis em seu  corpo.Um belo dia, depois de se calar frente a uma injustiça social, as manchinhas chegam até a garganta. Mas era só ele que via, mais ninguém. Cada vez que ele continha seu descontentamento com alguma coisa, mais manchas apareciam. Até que o menino resolve procurar a ajuda de um ancião e nessa busca também conhece Estela, que já teve ferrugem amarela. E ao final dessa outra jornada, permeada de pensamentos e reflexões, Raul parte para ação e defende uma lavadeira dentro do ônibus.  Aí você já pode imaginar o que aconteceu com a ferrugem azul, não é? Um livro lindo, delicado que aborda de maneira leve (e ao mesmo tempo profunda) questões afetivas e sociais que estão tão agarradas tal qual ferrugem e a gente nem vê. Indicamos para uma leitura compartilhada com os leitores autônomos. Ilustrações de Rosana Faria. Editora Salamandra.

Como e por que ler os clássicos universais desde cedo

Eu tenho um carinho especial por esse livro que me levou para o mundo dos clássicos e me ajudou a construir meu cânone, minha lista de livros importantes. Nessa obra, Ana faz um longo e delicioso passeio pela sua história com a leitura e pela história da literatura clássica. Nesse passeio, Ana vai nos mostrando as belas paisagens que podemos encontrar em cada obra e o porquê de serem tão incríveis. Foi a partir desse livro que li e me encantei por Sonho de uma noite de verão, As Aventuras de Pinóquio, Dom Quixote, Admirável Mundo Novo e tantos outros. Também comecei a namorar Rei Arthur, Robinson Crusoé, Gilgamesh, e por aí vai.

A paixão de Ana Maria pela leitura transborda nesse livro e a gente é contagiado por cada linha. Eu confesso, tinha medo dos clássicos, mas Ana me pegou pela mão, que nem uma boa professora, e me mostrou o caminho das pedras. Pronto, caminho sem volta. Um livro indicado para ficar na cabeceira (ou debaixo do travesseiro) dos adultos, sejam eles pais, professores ou amantes da literatura. O meu não sai de perto de mim.

Esse longo post foi o primeiro de uma série sobre a obra de Ana Maria Machado. Aguardem os próximos!

Boa leitura e boas conversas!

Sobre o autor

Isabella Zappa

Isabella Zappa

Olá, eu sou Isabella, autora do Na Corda Bamba! Fiz minha graduação e mestrado em Educação na PUC-Rio e uma pós graduação em Psicopedagogia. Além de escritora e poeta, sou professora de Ensino Fundamental I . Meu grande objetivo é formar leitores e escritores! Por isso, livros, letras e poesia transbordam nas minhas aulas!

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