Literatura

Na Corda Bamba na Travessa: Meu Crespo é de Rainha

Representatividade 

Representatividade é algo que a gente considera bastante na hora de escolher um livro para fazer a resenha. Infelizmente, ainda hoje, a maioria das crianças, sejam elas negras ou brancas, têm pouco acesso à literatura. Se formos mais além, esse acesso, em grande parte, é à livros de baixa qualidade. E, por fim, a quase totalidade desses livros retrata personagens brancos. 

Conheça outros livros que buscam representatividade

Com cerca de 56% da população brasileira se declarando negra ou parda é, no mínimo, instigante que tenhamos tão poucos personagens negros na literatura infantil. As crianças negras não se encontram nessas obras e é preciso cada vez mais difundir e popularizar livros que possibilitem esse reconhecimento, tentando assim aproximar esses indivíduos da literatura. 

A escritora americana Bell Hooks é famosa por ensaios que estudaram os fatores de gênero, classe e raça como perpetuadores das opressões e discriminações. 

Meu Crespo é de Rainha

Entre as meninas negras, o cabelo é uma grande preocupação. Primeiro porque ainda não socialmente aceitável. Mesmo mulheres brancas de cabelos ondulados ou crespos alisam constantemente suas madeixas. Nenhum fio pode aparecer fora do lugar e esse é um fator que constrói (ou destrói) a autoestima de muitas meninas negras. 

A obra infantil de Bell Hooks, ilustrada por Chris Raschka aborda de maneira lúdica, alegre e elogioso o cabelo crespo por tantas vezes difamado.

Com diferentes representações de meninas e penteados no cabelo, a gente consegue sentir de fora a maciez, o perfume e o movimento dos cachos crespos. 

“Cabelo pra pentear, cabelo pra enfeitar, cabelo para enrolar e trançar ou deixar como está. Cabelo tão sedoso tão gostoso de brincar. Cabeleira que leva as tristezas pra bem longe.”

A ideia do livro surgiu quando a autora testemunhou uma professora lendo um livro sobre “cabelos ruins” para crianças em uma escola americana. A ativista e escritora resolveu, então, criar uma elegia ao cabelo crespo. 

E esse livro vem em forma de poema, com rimas divertidas, alegres e ilustrações aquareladas cheias de cores que retratam meninas diferentes penteando, brincando e curtindo o seus cabelos. As palavras aparecem em formatos e tamanhos diferentes, assim como são os cabelos. 

Indicamos para os leitores Iniciantes e Autônomos.

Lugar de fala 

Como mulher branca, não tenho lugar de fala para essa análise. Entretanto, tenhos as minhas dificuldades com meu cabelo e acredito firmemente que essa obra é um espaço de construção para crianças negras ou brancas, com cabelos lisos ou crespos. 

Acredito porque acho que brancos precisam ver diversidade nos livros;  outras cores, outros cabelos, outras formas de ser e estar no mundo. 

Acredito porque o livro é gostoso, colorido e alegre, com uma mensagem delicada e firme.  

Acredito que toda criança pode se divertir com essa poesia aquarelada. Afinal, todos temos cabelos, de tipos, cores, formatos e tamanhos diferentes. 

E é essa diferença que Bell quer abraçar e abarcar com o seu livro. 

Sejamos todos reis e rainhas ostentando nossos cabelos do jeito que a gente quiser! 

Boa leitura e boas conversas!

 

Sobre o autor

Isabella Zappa

Isabella Zappa

Olá, eu sou Bella, criadora do Na Corda Bamba! Sou pedagoga, psicopedagoga e mestre em Educação. Atualmente trabalho como professora de Ensino Fundamental I aqui no Rio de Janeiro.
Sou uma viajante literária e geográfica, adoro comida italiana, cheiro de mato e o canto dos passarinhos.

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